Decreto-Lei n.º 244/95
de 14 de Setembro
Consagrado
a partir de 1979, o ilícito de mera ordenação social tem vindo a assumir uma
importância antes dificilmente imaginável.
Com efeito, a par do programa de descriminalização desde então gizado, com a
inerente transformação em contra-ordenações de muitas infracções anteriormente
qualificadas como contravenções ou como crimes, regista-se um crescente
movimento de neopunição, com o alargamento notável das áreas de actividade que
agora são objecto de ilícito de mera ordenação social e, do mesmo passo, com a
fixação de coimas de montantes muito elevados e a cominação de sanções
acessórias especialmente severas. Compreensivelmente, não pode o direito de
mera ordenação social continuar a ser olhado como um direito de bagatelas
penais.
É nesta perspectiva que deve entender-se a presente reforma do regime geral das
contra-ordenações, especialmente orientada para o efectivo reforço das
garantias dos arguidos perante o crescente poder sancionatório da
Administração. Por outro lado, cumpre acentuar a eficácia do sistema punitivo
das contra-ordenações, tão mais necessário quanto mais extenso o domínio de
intervenção e a relevância daquele sistema na ordenação da vida comunitária.
Por último, afigura-se adequado, no momento presente, proceder ao
aperfeiçoamento da coerência interna do regime geral de mera ordenação social,
bem como da coordenação deste com o disposto na legislação penal e processual
penal.
Em rápida síntese, cabe agora descrever as principais alterações consagradas no
presente diploma.
Em ordem ao reforço dos direitos e garantias dos arguidos, destacam-se a
fixação de regras sobre a atenuação especial da coima e a previsão de tal
atenuação nos casos de tentativa e cumplicidade, bem como a revisão do regime
das sanções acessórias, estabelecendo com rigor os respectivos pressupostos e,
em especial, fazendo depender a sua aplicação de uma ligação relevante com a
prática da contra-ordenação.
Mais ainda, reduzem-se os prazos de prescrição da coima, elimina-se a previsão
da possibilidade de detenção para identificação do agente de uma
contra-ordenação e procede-se a uma explicitação mais rigorosa dos direitos
fundamentais de audiência e defesa do arguido.
Deve, a este propósito, ser também referida a revisão do disposto sobre apoio
judiciário, o reforço do dever de fundamentação de decisão administrativa,
assim como da decisão judicial, o alargamento significativo do prazo para
impugnação da decisão administrativa - esclarecendo regras sobre o modo como
deve contar-se - e do prazo de recurso da decisão judicial, o estabelecimento
da proibição da reformatio in pejus e, por último, a previsão da obrigação de
restituir os montantes pagos a título de coima em caso de caducidade da decisão
administrativa, devida a decisão judicial incompatível com aquela.
No sentido de garantir uma maior eficácia do sistema, são de sublinhar a
alteração dos limites mínimos e máximos das coimas, tendo em conta a evolução
do índice de preços ao consumidor desde a actualização de 1989, a inclusão da
referência ao benefício económico retirado da infracção entre os critérios
gerais de medida da coima, a par da previsão como circunstância qualificativa
do benefício económico, nos casos em que este excede o limite máximo da coima,
e ainda a fixação de um cúmulo jurídico das coimas, em caso de concurso de
contra-ordenação, com equiparação entre concurso ideal e concurso real.
Em particular, procede-se à revisão do regime do pagamento voluntário da coima,
esclarecendo-se que não fica precludida a aplicação de sanções acessórias, e
aperfeiçoam-se quer o regime atinente ao processo de aplicação administrativa
das coimas e das sanções acessórias, ao processo judicial de aplicação de tais
sanções e aos recursos das decisões, quer as regras em matéria de execução da
coima e das sanções acessórias, de custas e de taxa de justiça.
No plano da intensificação da coerência interna do regime geral de mera
ordenação social e da respectiva coordenação com a legislação penal e
processual penal, devem salientar-se, entre outros aspectos, a introdução de
uma distinção clara entre a apreensão, as medidas de natureza provisória e a
perda com efeitos definitivos, a clarificação do regime de perda e da apreensão
de objectos perigosos, a fixação de regras sobre a suspensão da prescrição do
procedimento e a interrupção da prescrição da coima, para além da substituição
do chamado processo de advertência pela previsão da sanção de admoestação.
Alteram-se ainda as regras sobre competência territorial do tribunal para
conhecer da impugnação da decisão da autoridade administrativa, de modo a
aproximá-las às regras equivalentes do Código de Processo Penal. Em simultâneo,
estabelece-se, em sede de impugnação da decisão administrativa, a
obrigatoriedade da presença do Ministério Público na audiência, atribuindo-se a
esta entidade a competência para promover a prova, clarificando-se também o
regime da retirada da acusação e do recurso. É, do mesmo passo, eliminada a
referência ao «trânsito em julgado da decisão definitiva», passando a
utilizar-se a expressão «carácter definitivo da decisão», ou equivalente.
Apesar das significativas alterações introduzidas, optou-se por manter
inalterada a estrutura formal do diploma agora revisto, bem como a numeração do
articulado, o que facilitará a sua aplicação pelos operadores deste sector do
jurídico.
A ideia de Estado de direito constitucionalmente assumida postula a limitação
do poder sancionatório das entidades públicas pelo princípio da
proporcionalidade, do mesmo modo que exige o respeito, na prossecução do
interesse público, pelos direitos, liberdades e garantias individuais.
Espera-se que a inserção do presente diploma no ordenamento português contribua
para conciliar a eficácia do ilícito de mera ordenação social com o progresso
na construção, que deve ser tarefa permanente da comunidade, de um verdadeiro
Estado de direito.
Procede-se também à publicação integral do texto resultante das modificações
introduzidas.
Assim:
No uso da autorização legislativa concedida pela Lei n.º 13/95, de 5 de Maio, e
nos termos das alíneas a) e b) do n.º 1 do artigo 201.º da Constituição, o
Governo decreta o seguinte:
Artigo
1.º Os artigos 1.º, 3.º,
4.º, 9.º,
13.º, 16.º
a 19.º, 21.º
a 27.º, 29.º,
33.º, 35.º,
38.º, 39.º,
41.º, 45.º,
49.º a 51.º,
53.º, 56.º,
58.º a 62.º,
64.º, 65.º,
68.º a 76.º,
78.º a 83.º,
85.º e 87.º
a 95.º do Decreto-Lei n.º 433/82, de 27
de Outubro, alterado pelo Decreto-Lei n.º 356/89,
de 17 de Outubro, passam a ter a seguinte redacção:
Constitui
contra-ordenação todo o facto ilícito e censurável que preencha um tipo legal
no qual se comine uma coima.
1
- A punição da contra-ordenação é determinada pela lei vigente no momento da
prática do facto ou do preenchimento dos pressupostos de que depende.
2 - Se a lei vigente ao tempo da prática do facto for posteriormente
modificada, aplicar-se-á a lei mais favorável ao arguido, salvo se este já
tiver sido condenado por decisão definitiva ou transitada em julgado e já
executada.
3 - Quando a lei vale para um determinado período de tempo, continua a ser
punida a contra-ordenação praticada durante esse período.
Salvo
tratado ou convenção internacional em contrário, são puníveis as
contra-ordenações:
a) Praticadas em território português, seja qual for a
nacionalidade do agente;
b) Praticadas a bordo de aeronaves ou navios portugueses.
1
- ...
2 - Se o erro lhe for censurável, a coima pode ser especialmente atenuada.
1
- (Anterior corpo do artigo.)
2 - A tentativa é punível com a coima aplicável à contra-ordenação consumada,
especialmente atenuada.
1
- ...
2 - ...
3 - É aplicável ao cúmplice a coima fixada para o autor, especialmente
atenuada.
1
- Se o contrário não resultar de lei, o montante mínimo da coima aplicável às
pessoas singulares é de 750$00 e o máximo de 750000$00.
2 - Se o contrário não resultar de lei, o montante máximo da coima aplicável às
pessoas colectivas é de 9000000$00.
3 - Em caso de negligência, se o contrário não resultar de lei, os montantes
máximos previstos nos números anteriores são, respectivamente, de 375000$00 e
de 4500000$00.
4 - Em qualquer caso, se a lei, relativamente ao montante máximo, não
distinguir o comportamento doloso do negligente, este só pode ser sancionado
até metade daquele montante.
1
- A determinação da medida da coima faz-se em função da gravidade da
contra-ordenação, da culpa, da situação económica do agente e do benefício
económico que este retirou da prática da contra-ordenação.
2 - Se o agente retirou da infracção um benefício económico calculável superior
ao limite máximo da coima, e não existirem outros meios de o eliminar, pode
este elevar-se até ao montante do benefício, não devendo todavia a elevação
exceder um terço do limite máximo legalmente estabelecido.
3 - Quando houver lugar à atenuação especial da punição por contra-ordenação,
os limites máximo e mínimo da coima são reduzidos para metade.
1
- Quem tiver praticado várias contra-ordenações é punido com uma coima cujo
limite máximo resulta da soma das coimas concretamente aplicadas às infracções
em concurso.
2 - A coima aplicável não pode exceder o dobro do limite máximo mais elevado
das contra-ordenações em concurso.
3 - A coima a aplicar não pode ser inferior à mais elevada das coimas
concretamente aplicadas às várias contra-ordenações.
Artigo 21.º
[...]
1
- A lei pode, simultaneamente com a coima, determinar as seguintes sanções
acessórias, em função da gravidade da infracção e da culpa do agente:
a) Perda de objectos pertencentes ao agente;
b) Interdição do exercício de profissões ou actividades cujo exercício dependa
de título público ou de autorização ou homologação de autoridade pública;
c) Privação do direito a subsídio ou benefício outorgado por entidades ou
serviços públicos;
d) Privação do direito de participar em feiras ou mercados;
e) Privação do direito de participar em arrematações ou concursos públicos que
tenham por objecto a empreitada ou a concessão de obras públicas, o fornecimento
de bens e serviços, a concessão de serviços públicos e a atribuição de licenças
ou alvarás;
f) Encerramento de estabelecimento cujo funcionamento esteja sujeito a
autorização ou licença de autoridade administrativa;
g) Suspensão de autorizações, licenças e alvarás.
2
- As sanções referidas nas alíneas b) a g) do número anterior têm a duração
máxima de dois anos, contados a partir da decisão condenatória definitiva.
3 - ...
Artigo 22.º
Perda de objectos perigosos
1
- Podem ser declarados perdidos os objectos que serviram ou estavam destinados
a servir para a prática de uma contra-ordenação, ou que por esta foram
produzidos, quando tais objectos representem, pela sua natureza ou pelas
circunstâncias do caso, grave perigo para a comunidade ou exista sério risco da
sua utilização para a prática de um crime ou de outra contra-ordenação.
2 - Salvo se o contrário resultar do presente diploma, são aplicáveis à perda
de objectos perigosos as regras relativas à sanção acessória de perda de
objectos.
Quando,
devido a actuação dolosa do agente, se tiver tornado total ou parcialmente
inexequível a perda de objectos que, no momento da prática do facto, lhe
pertenciam, pode ser declarada perdida uma quantia em dinheiro correspondente
ao valor daqueles.
O
carácter definitivo ou o trânsito em julgado da decisão de perda determina a
transferência da propriedade para o Estado ou outra entidade pública,
instituição particular de solidariedade social ou pessoa colectiva de utilidade
pública que a lei preveja.
Artigo 25.º
Perda independente de coima
A
perda de objectos perigosos ou do respectivo valor pode ter lugar ainda que não
possa haver procedimento contra o agente ou a este não seja aplicada uma coima.
Artigo 26.º
Objectos pertencentes a terceiro
A
perda de objectos perigosos pertencentes a terceiro só pode ter lugar:
a) Quando os seus titulares tiverem concorrido, com culpa,
para a sua utilização ou produção, ou do facto tiverem tirado vantagens; ou
b) Quando os objectos forem, por qualquer título, adquiridos após a prática do
facto, conhecendo os adquirentes a proveniência.
O
procedimento por contra-ordenação extingue-se por efeito da prescrição logo que
sobre a prática da contra-ordenação hajam decorrido os seguintes prazos:
a) Dois anos, quando se trate de contra-ordenação a que seja
aplicável uma coima superior ao montante máximo previsto no n.º 1 do artigo
17.º;
b) Um ano, nos restantes casos.
1
- ...
a) Três anos, no caso de uma coima superior ao montante
máximo previsto no n.º 1 do artigo 17.º;
b) Um ano, nos restantes casos.
2
- O prazo conta-se a partir do carácter definitivo ou do trânsito em julgado da
decisão condenatória.
O
processamento das contra-ordenações e a aplicação das coimas e das sanções
acessórias competem às autoridades administrativas, ressalvadas as
especialidades previstas no presente diploma.
1
- ...
a) Se tiver consumado a infracção ou, caso a infracção não
tenha chegado a consumar-se, se tiver praticado o último acto de execução ou,
em caso de punibilidade dos actos preparatórios, se tiver praticado o último
acto de preparação;
b) O arguido tem o seu domicílio ao tempo do início ou durante qualquer fase do
processo.
2
- Se a infracção for cometida a bordo de aeronave ou navio português, fora do
território nacional, será competente a autoridade em cuja circunscrição se
situe o aeroporto ou porto português que primeiro for escalado depois do
cometimento da infracção.
Artigo 38.º
Autoridades competentes em processo criminal
1
- Quando se verifique concurso de crime e contra-ordenação, ou quando, pelo
mesmo facto, uma pessoa deva responder a título de crime e outra a título de
contra-ordenação, o processamento da contra-ordenação cabe às autoridades
competentes para o processo criminal.
2 - Se estiver pendente um processo na autoridade administrativa, devem os
autos ser remetidos à autoridade competente nos termos do número anterior.
3 - ...
4 - ...
No
caso referido no n.º 1 do artigo anterior, a aplicação da coima e das sanções
acessórias cabe ao juiz competente para o julgamento do crime.
Artigo 41.º
[...]
1
- ...
2 - No processo de aplicação da coima e das sanções acessórias, as autoridades
administrativas gozam dos mesmos direitos e estão submetidas aos mesmos deveres
das entidades competentes para o processo criminal, sempre que o contrário não
resulte do presente diploma.
Artigo 45.º
Consulta dos autos
1
- Se o processo couber às autoridades competentes para o processo criminal,
podem as autoridades administrativas normalmente competentes consultar os
autos, bem como examinar os objectos apreendidos.
2 - ...
As
autoridades administrativas competentes e as autoridades policiais podem exigir
ao agente de uma contra-ordenação a respectiva identificação.
Artigo 50.º
Direito de audição e defesa do arguido
Não
é permitida a aplicação de uma coima ou de uma sanção acessória sem antes se
ter assegurado ao arguido a possibilidade de, num prazo razoável, se pronunciar
sobre a contra-ordenação que lhe é imputada e sobre a sanção ou sanções em que
incorre.
1
- Nos casos de contra-ordenação sancionável com coima de valor não superior a
metade dos montantes máximos previstos nos n.os 1 e 2 do artigo 17.º, é
admissível em qualquer altura do processo, mas sempre antes da decisão, o
pagamento voluntário da coima, a qual, se o contrário não resultar da lei, será
liquidada pelo mínimo, sem prejuízo das custas que forem devidas.
2 - O pagamento voluntário da coima não exclui a possibilidade de aplicação de
sanções acessórias.
1
- Quando a reduzida gravidade da infracção e da culpa do agente o justifique,
pode a entidade competente limitar-se a proferir uma admoestação.
2 - A admoestação é proferida por escrito, não podendo o facto voltar a ser
apreciado como contra-ordenação.
1
- ...
2 - A autoridade administrativa nomeia defensor ao arguido, oficiosamente ou a
requerimento deste, nos termos previstos na legislação sobre apoio judiciário,
sempre que as circunstâncias do caso revelarem a necessidade ou a conveniência
de o arguido ser assistido.
3 - Da decisão da autoridade administrativa que indefira o requerimento de
nomeação de defensor cabe recurso para o tribunal.
Artigo 56.º
Processo realizado pelas autoridades competentes para o processo criminal
1
- Quando o processo é realizado pelas autoridades competentes para o processo
criminal, as autoridades administrativas são obrigadas a dar-lhes toda a
colaboração.
2 - Sempre que a acusação diga respeito à contra-ordenação, esta deve ser
comunicada às autoridades administrativas.
3 - ...
Artigo 58.º
Decisão condenatória
1
- A decisão que aplica a coima ou as sanções acessórias deve conter:
a) A identificação dos arguidos;
b) A descrição dos factos imputados, com indicação das provas obtidas;
c) A indicação das normas segundo as quais se pune e a fundamentação da decisão;
d) A coima e as sanções acessórias.
2
- ...
a) A condenação se torna definitiva e exequível se não for
judicialmente impugnada nos termos do artigo 59.º;
b) ...
3
- ...
a) A ordem de pagamento da coima no prazo máximo de 10 dias
após o carácter definitivo ou o trânsito em julgado da decisão;
b) ...
1
- ...
2 - ...
3 - O recurso é feito por escrito e apresentado à autoridade administrativa que
aplicou a coima no prazo de 20 dias após o seu conhecimento pelo arguido,
devendo constar de alegações e conclusões.
Artigo 60.º
Contagem do prazo para impugnação
1
- O prazo para a impugnação da decisão da autoridade administrativa suspende-se
aos sábados, domingos e feriados.
2 - O termo do prazo que caia em dia durante o qual não for possível, durante o
período normal, a apresentação do recurso transfere-se para o primeiro dia útil
seguinte.
1
- É competente para conhecer do recurso o tribunal em cuja área territorial se
tiver consumado a infracção.
2 - Se a infracção não tiver chegado a consumar-se, é competente o tribunal em
cuja área se tiver praticado o último acto de execução ou, em caso de
punibilidade dos actos preparatórios, o último acto de preparação.
1
- Recebido o recurso, e no prazo de cinco dias, deve a autoridade
administrativa enviar os autos ao Ministério Público, que os tornará presentes
ao juiz, valendo este acto como acusação.
2 - ...
1
- ...
2 - O juiz decide por despacho quando não considere necessária a audiência de
julgamento e o arguido ou o Ministério Público não se oponham.
3 - ...
4 - Em caso de manutenção ou alteração da condenação deve o juiz fundamentar a
sua decisão, tanto no que concerne aos factos como ao direito aplicado e às
circunstâncias que determinaram a medida da sanção.
5 - ...
Ao
aceitar o recurso o juiz marca a audiência, salvo o caso referido no n.º 2 do
artigo anterior.
1
- Nos casos em que o arguido não comparece nem se faz representar por advogado
tomar-se-ão em conta as declarações que lhe tenham sido colhidas no processo ou
registar-se-á que ele nunca se pronunciou sobre a matéria dos autos, não
obstante lhe ter sido concedida a oportunidade para o fazer, e julgar-se-á.
2 - Se, porém, o tribunal o considerar necessário, pode marcar uma nova
audiência.
O
Ministério Público deve estar presente na audiência de julgamento.
1
- ...
2 - O mesmo regime se aplicará, com as necessárias adaptações, aos casos em
que, nos termos do n.º 3 do artigo 64.º, o juiz decidir arquivar o processo.
3 - Em conformidade com o disposto no n.º 1, o juiz comunicará às autoridades
administrativas a data da audiência.
4 - O tribunal comunicará às mesmas autoridades a sentença, bem como as demais
decisões finais.
Artigo 71.º
Retirada do recurso
1
- O recurso pode ser retirado até à sentença em 1.ª instância ou até ser
proferido o despacho previsto no n.º 2 do artigo 64.º
2 - Depois do início da audiência de julgamento, o recurso só pode ser retirado
mediante o acordo do Ministério Público.
1
- Compete ao Ministério Público promover a prova de todos os factos que
considere relevantes para a decisão.
2 - Compete ao juiz determinar o âmbito da prova a produzir.
1
- ...
a) ...
b) A condenação do arguido abranger sanções acessórias;
c) ...
d) ...
e) ...
2
- ...
3 - ...
1
- O recurso deve ser interposto no prazo de 10 dias a partir da sentença ou do
despacho, ou da sua notificação ao arguido, caso a decisão tenha sido proferida
sem a presença deste.
2 - ...
3 - ...
4 - ...
1
- ...
2 - ...
a) Alterar a decisão do tribunal recorrido sem qualquer
vinculação aos termos e ao sentido da decisão recorrida, salvo o disposto no
artigo 72.º-A;
b) ...
1
- ...
2 - A conversão do processo determina a interrupção da instância e a
instauração de inquérito, aproveitando-se, na medida do possível, as provas já
produzidas.
1
- Se o mesmo processo versar sobre crimes e contra-ordenações, havendo
infracções que devam apenas considerar-se como contra-ordenações, aplicam-se,
quanto a elas, os artigos 42.º, 43.º, 45.º, 58.º, n.os 1 e 3, 70.º e 83.º.
2 - ...
3 - ...
CAPÍTULO VI
Decisão definitiva, caso julgado e revisão
Artigo 79.º
Alcance da decisão definitiva e do caso julgado
1
- O carácter definitivo da decisão da autoridade administrativa ou o trânsito
em julgado da decisão judicial que aprecie o facto como contra-ordenação ou
como crime precludem a possibilidade de reapreciação de tal facto como
contra-ordenação.
2 - O trânsito em julgado da sentença ou despacho judicial que aprecie o facto
como contra-ordenação preclude igualmente o seu novo conhecimento como crime.
1
- A revisão de decisões definitivas ou transitadas em julgado em matéria
contra-ordenacional obedece ao disposto nos artigos 449.º e seguintes do Código
de Processo Penal, sempre que o contrário não resulte do presente diploma.
2 - ...
a) O arguido apenas foi condenado em coima inferior a
7500$00;
b) Já decorreram cinco anos após o trânsito em julgado ou carácter definitivo
da decisão a rever.
3
- ...
1
- A revisão de decisão da autoridade administrativa cabe ao tribunal competente
para a impugnação judicial.
2 - Têm legitimidade para requerer a revisão o arguido, a autoridade
administrativa e o Ministério Público.
3 - A autoridade administrativa deve remeter os autos ao representante do
Ministério Público junto do tribunal competente.
4 - A revisão de decisão judicial será da competência do tribunal da relação,
aplicando-se o disposto no artigo 451.º do Código de Processo Penal.
1
- A decisão da autoridade administrativa que aplicou uma coima ou uma sanção
acessória caduca quando o arguido venha a ser condenado em processo criminal
pelo mesmo facto.
2 - O mesmo efeito tem a decisão final do processo criminal que, não
consistindo numa condenação, seja incompatível com a aplicação da coima ou da
sanção acessória.
3 - As importâncias pecuniárias que tiverem sido pagas a título de coima serão,
por ordem de prioridade, levadas à conta da multa e das custas processuais ou,
sendo caso disso, restituídas.
4 - ...
Artigo 83.º
Processo de apreensão
Quando,
no decurso do processo, a autoridade administrativa decidir apreender qualquer
objecto, nos termos do artigo 48.º-A, deve notificar a decisão às pessoas que
sejam titulares de direitos afectados pela apreensão.
A
decisão de apreensão pode ser impugnada judicialmente, sendo aplicáveis as
regras relativas à impugnação da decisão de perda de objectos.
1
- As pessoas colectivas e as associações sem personalidade jurídica são
representadas no processo por quem legal ou estatutariamente as deva
representar.
2 - Nos processos relativos a pessoas colectivas ou a associações sem
personalidade jurídica é também competente para a aplicação da coima e das
sanções acessórias a autoridade administrativa em cuja área a pessoa colectiva
ou a associação tenha a sua sede.
1
- A coima é paga no prazo de 10 dias a partir da data em que a decisão se
tornar definitiva ou transitar em julgado, não podendo ser acrescida de quaisquer
adicionais.
2 - O pagamento deve ser feito contra recibo, cujo duplicado será entregue à
autoridade administrativa ou tribunal que tiver proferido a decisão.
3 - Em caso de pagamento parcial, e salvo indicação em contrário do arguido, o
pagamento será, por ordem de prioridades, levado à conta da coima e das custas.
4 - ...
5 - Pode ainda a autoridade administrativa ou o tribunal autorizar o pagamento
em prestações, não podendo a última delas ir além dos dois anos subsequentes ao
carácter definitivo ou ao trânsito em julgado da decisão e implicando a falta
de pagamento de uma prestação o vencimento de todas as outras.
6 - ...
1
- ...
2 - A execução é promovida pelo representante do Ministério Público junto do
tribunal competente, aplicando-se, com as necessárias adaptações, o disposto no
Código de Processo Penal sobre a execução da multa.
3 - ...
4 - O disposto neste artigo aplica-se, com as necessárias adaptações, às
sanções acessórias, salvo quanto aos termos da execução, aos quais é aplicável
o disposto sobre a execução de penas acessórias em processo criminal.
1
- A execução da coima e das sanções acessórias extingue-se com a morte do
arguido.
2 - Deve suspender-se a execução da decisão da autoridade administrativa quando
tenha sido proferida acusação em processo criminal pelo mesmo facto.
3 - Quando, nos termos dos n.os 1 e 2 do artigo 82.º, exista decisão em
processo criminal incompatível com a aplicação administrativa de coima ou de
sanção acessória, deve o tribunal da execução declarar a caducidade desta,
oficiosamente ou a requerimento do Ministério Público ou do arguido.
1
- ...
2 - As decisões referidas no n.º 1 são tomadas sem necessidade de audiência
oral, assegurando-se ao arguido ou ao Ministério Público a possibilidade de
justificarem, por requerimento escrito, as suas pretensões.
1
- Se o contrário não resultar desta lei, as custas em processo de
contra-ordenação regular-se-ão pelos preceitos reguladores das custas em
processo criminal.
2 - ...
3 - As custas abrangem, nos termos gerais, a taxa de justiça, os honorários dos
defensores oficiosos, os emolumentos a pagar aos peritos e os demais encargos
resultantes do processo.
Artigo 93.º
Da taxa de justiça
1
- O processo de contra-ordenação que corra perante as autoridades
administrativas não dá lugar ao pagamento de taxa de justiça.
2 - Está também isenta de taxa de justiça a impugnação judicial de qualquer
decisão das autoridades administrativas.
3 - Dão lugar ao pagamento de taxa de justiça todas as decisões judiciais
desfavoráveis ao arguido.
4 - A taxa de justiça não será inferior a 150$00 nem superior a 75000$00,
devendo o seu montante ser fixado em razão da situação económica do infractor,
bem como da complexidade do processo.
1
- ...
2 - ...
3 - As custas são suportadas pelo arguido em caso de aplicação de uma coima ou
de uma sanção acessória, de desistência ou rejeição da impugnação judicial ou
dos recursos de despacho ou sentença condenatória.
4 - ...
Artigo 95.º
Impugnação das custas
1
- O arguido pode, nos termos gerais, impugnar judicialmente a decisão da
autoridade administrativa relativa às custas, devendo a impugnação ser
apresentada no prazo de 10 dias a partir do conhecimento da decisão a impugnar.
2 - ...
Artigo
2.º São aditados ao Decreto-Lei n.º 433/82, de
27 de Outubro, alterado pelo Decreto-Lei n.º 356/89,
de 17 de Outubro, os artigos 21.º-A,
27.º-A, 30.º-A,
48.º-A, 65.º-A,
72.º-A e 89.º-A,
com a seguinte redacção:
Artigo
3.º São revogados os artigos 84.º
e 86.º do Decreto-Lei
n.º 433/82, de 27 de Outubro.
Artigo
4.º É republicado em anexo o texto
do Decreto-Lei n.º 433/82, de 27 de Outubro, com as alterações que lhe
foram introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 356/89, de
17 de Outubro, e pelo presente diploma.
Artigo 5.º O presente diploma entra em vigor no dia 1 de Outubro de 1995.
Visto e aprovado em Conselho de Ministros de 27 de Julho de 1995. - Manuel
Dias Loureiro - José Manuel Cardoso Borges Soeiro.
Promulgado em 24 de Agosto de 1995.
Publique-se.
O Presidente da República, MÁRIO SOARES.
Referendado em 28 de Agosto de 1995.
O Primeiro-Ministro, Aníbal António Cavaco Silva.
I PARTE
Da contra-ordenação e da coima em geral
CAPÍTULO I
Âmbito de vigência
Artigo 1.º
Definição
Constitui
contra-ordenação todo o facto ilícito e censurável que preencha um tipo legal
no qual se comine uma coima.
Artigo 2.º
Princípio da legalidade
Só
será punido como contra-ordenação o facto descrito e declarado passível de
coima por lei anterior ao momento da sua prática.
Artigo 3.º
Aplicação no tempo
1
- A punição da contra-ordenação é determinada pela lei vigente no momento da
prática do facto ou do preenchimento dos pressupostos de que depende.
2 - Se a lei vigente ao tempo da prática do facto for posteriormente modificada,
aplicar-se-á a lei mais favorável ao arguido, salvo se este já tiver sido
condenado por decisão definitiva ou transitada em julgado e já executada.
3 - Quando a lei vale para um determinado período de tempo, continua a ser
punida a contra-ordenação praticada durante esse período.
Artigo 4.º
Aplicação no espaço
Salvo
tratado ou convenção internacional em contrário, são puníveis as
contra-ordenações:
a) Praticadas em território português, seja qual for a
nacionalidade do agente;
b) Praticadas a bordo de aeronaves ou navios portugueses.
Artigo 5.º
Momento da prática do facto
O
facto considera-se praticado no momento em que o agente actuou ou, no caso de
omissão, deveria ter actuado, independentemente do momento em que o resultado
típico se tenha produzido.
Artigo 6.º
Lugar da prática do facto
O
facto considera-se praticado no lugar em que, total ou parcialmente e sob
qualquer forma de comparticipação, o agente actuou ou, no caso de omissão,
devia ter actuado, bem como naquele em que o resultado típico se tenha
produzido.
CAPÍTULO II
Da contra-ordenação
Artigo 7.º
Responsabilidade das pessoas colectivas ou equiparadas
1
- As coimas podem aplicar-se tanto às pessoas singulares como às pessoas
colectivas, bem como às associações sem personalidade jurídica.
2 - As pessoas colectivas ou equiparadas serão responsáveis pelas
contra-ordenações praticadas pelos seus órgãos no exercício das suas funções.
Artigo 8.º
Dolo e negligência
1
- Só é punível o facto praticado com dolo ou, nos casos especialmente previstos
na lei, com negligência.
2 - O erro sobre elementos do tipo, sobre a proibição ou sobre um estado de
coisas que, a existir, afastaria a ilicitude do facto ou a culpa do agente
exclui o dolo.
3 - Fica ressalvada a punibilidade da negligência nos termos gerais.
Artigo 9.º
Erro sobre a ilicitude
1
- Age sem culpa quem actua sem consciência da ilicitude do facto, se o erro lhe
não for censurável.
2 - Se o erro lhe for censurável, a coima pode ser especialmente atenuada.
Artigo 10.º
Inimputabilidade em razão da idade
Para
os efeitos desta lei, consideram-se inimputáveis os menores de 16 anos.
Artigo 11.º
Inimputabilidade em razão de anomalia psíquica
1
- É inimputável quem, por força de uma anomalia psíquica, é incapaz, no momento
da prática do facto, de avaliar a ilicitude deste ou de se determinar de acordo
com essa avaliação.
2 - Pode ser declarado inimputável quem, por força de uma anomalia psíquica
grave não acidental e cujos efeitos não domina, sem que por isso possa ser
censurado, tem no momento da prática do facto a capacidade para avaliar a
ilicitude deste ou para se determinar de acordo com essa avaliação
sensivelmente diminuída.
3 - A imputabilidade não é excluída quando a anomalia psíquica tiver sido
provocada pelo próprio agente com intenção de cometer o facto.
Artigo 12.º
Tentativa
1
- Há tentativa quando o agente pratica actos de execução de uma
contra-ordenação que decidiu cometer sem que esta chegue a consumar-se.
2 - São actos de execução:
a) Os que preenchem um elemento constitutivo de um tipo de
contra-ordenação;
b) Os que são idóneos a produzir o resultado típico;
c) Os que, segundo a experiência comum e salvo circunstâncias imprevisíveis,
são de natureza a fazer esperar que se lhes sigam actos das espécies indicadas
nas alíneas anteriores.
Artigo 13.º
Punibilidade da tentativa
1
- A tentativa só pode ser punida quando a lei expressamente o determinar.
2 - A tentativa é punível com a coima aplicável à contra-ordenação consumada,
especialmente atenuada.
Artigo 14.º
Desistência
1
- A tentativa não é punível quando o agente voluntariamente desiste de
prosseguir na execução da contra-ordenação, ou impede a consumação, ou, não
obstante a consumação, impede a verificação do resultado não compreendido no
tipo da contra-ordenação.
2 - Quando a consumação ou a verificação do resultado são impedidas por facto
independente da conduta do desistente, a tentativa não é punível se este se
esforça por evitar uma ou outra.
Artigo 15.º
Desistência em caso de comparticipação
Em
caso de comparticipação, não é punível a tentativa daquele que voluntariamente
impede a consumação ou a verificação do resultado, nem daquele que se esforça
seriamente por impedir uma ou outra, ainda que os comparticipantes prossigam na
execução da contra-ordenação ou a consumem.
Artigo 16.º
Comparticipação
1
- Se vários agentes comparticipam no facto, qualquer deles incorre em
responsabilidade por contra-ordenação mesmo que a ilicitude ou o grau de
ilicitude do facto dependam de certas qualidades ou relações especiais do
agente e estas só existam num dos comparticipantes.
2 - Cada comparticipante é punido segundo a sua culpa, independentemente da
punição ou do grau de culpa dos outros comparticipantes.
3 - É aplicável ao cúmplice a coima fixada para o autor, especialmente
atenuada.
CAPÍTULO III
Da coima e das sanções acessórias
Artigo 17.º
Montante da coima
1
- Se o contrário não resultar de lei, o montante mínimo da coima aplicável às
pessoas singulares é de 750$00 e o máximo de 750000$00.
2 - Se o contrário não resultar de lei, o montante máximo da coima aplicável às
pessoas colectivas é de 9000000$00.
3 - Em caso de negligência, se o contrário não resultar de lei, os montantes
máximos previstos nos números anteriores são, respectivamente, de 375000$00 e
de 4500000$00.
4 - Em qualquer caso, se a lei, relativamente ao montante máximo, não
distinguir o comportamento doloso do negligente, este só pode ser sancionado
até metade daquele montante.
Artigo 18.º
Determinação da medida da coima
1
- A determinação da medida da coima faz-se em função da gravidade da
contra-ordenação, da culpa, da situação económica do agente e do benefício
económico que este retirou da prática da contra-ordenação.
2 - Se o agente retirou da infracção um benefício económico calculável superior
ao limite máximo da coima, e não existirem outros meios de o eliminar, pode
este elevar-se até ao montante do benefício, não devendo todavia a elevação
exceder um terço do limite máximo legalmente estabelecido.
3 - Quando houver lugar à atenuação especial da punição por contra-ordenação,
os limites máximo e mínimo da coima são reduzidos para metade.
Artigo 19.º
Concurso de contra-ordenações
1
- Quem tiver praticado várias contra-ordenações é punido com uma coima cujo
limite máximo resulta da soma das coimas concretamente aplicadas às infracções
em concurso.
2 - A coima aplicável não pode exceder o dobro do limite máximo mais elevado
das contra-ordenações em concurso.
3 - A coima a aplicar não pode ser inferior à mais elevada das coimas concretamente
aplicadas às várias contra-ordenações.
Artigo 20.º
Concurso de infracções
Se
o mesmo facto constituir simultaneamente crime e contra-ordenação, será o
agente sempre punido a título de crime, sem prejuízo da aplicação das sanções
acessórias previstas para a contra-ordenação.
Artigo 21.º
Sanções acessórias
1
- A lei pode, simultaneamente com a coima, determinar as seguintes sanções
acessórias, em função da gravidade da infracção e da culpa do agente:
a) Perda de objectos pertencentes ao agente;
b) Interdição do exercício de profissões ou actividades cujo exercício dependa
de título público ou de autorização ou homologação de autoridade pública;
c) Privação do direito a subsídio ou benefício outorgado por entidades ou
serviços públicos;
d) Privação do direito de participar em feiras ou mercados;
e) Privação do direito de participar em arrematações ou concursos públicos que
tenham por objecto a empreitada ou a concessão de obras públicas, o
fornecimento de bens e serviços, a concessão de serviços públicos e a
atribuição de licenças ou alvarás;
f) Encerramento de estabelecimento cujo funcionamento esteja sujeito a
autorização ou licença de autoridade administrativa;
g) Suspensão de autorizações, licenças e alvarás.
2
- As sanções referidas nas alíneas b) a g) do número anterior têm a duração
máxima de dois anos, contados a partir da decisão condenatória definitiva.
3 - A lei pode ainda determinar os casos em que deva dar-se publicidade à
punição por contra-ordenação.
Artigo 21.º-A
Pressupostos da aplicação das sanções acessórias
1
- A sanção referida na alínea a) do n.º 1 do artigo anterior só pode ser
decretada quando os objectos serviram ou estavam destinados a servir para a
prática de uma contra-ordenação, ou por esta foram produzidos.
2 - A sanção referida na alínea b) do n.º 1 do artigo anterior só pode ser
decretada se o agente praticou a contra-ordenação com flagrante e grave abuso
da função que exerce ou com manifesta e grave violação dos deveres que lhe são
inerentes.
3 - A sanção referida na alínea c) do n.º 1 do artigo anterior só pode ser
decretada quando a contra-ordenação tiver sido praticada no exercício ou por
causa da actividade a favor da qual é atribuído o subsídio.
4 - A sanção referida na alínea d) do n.º 1 do artigo anterior só pode ser
decretada quando a contra-ordenação tiver sido praticada durante ou por causa
da participação em feira ou mercado.
5 - A sanção referida na alínea e) do n.º 1 do artigo anterior só pode ser
decretada quando a contra-ordenação tiver sido praticada durante ou por causa
dos actos públicos ou no exercício ou por causa das actividades mencionadas
nessa alínea.
6 - As sanções referidas nas alíneas f) e g) do n.º 1 do artigo anterior só
podem ser decretadas quando a contra-ordenação tenha sido praticada no
exercício ou por causa da actividade a que se referem as autorizações, licenças
e alvarás ou por causa do funcionamento do estabelecimento.
Artigo 22.º
Perda de objectos perigosos
1
- Podem ser declarados perdidos os objectos que serviram ou estavam destinados
a servir para a prática de uma contra-ordenação, ou que por esta foram
produzidos, quando tais objectos representem, pela sua natureza ou pelas
circunstâncias do caso, grave perigo para a comunidade ou exista sério risco da
sua utilização para a prática de um crime ou de outra contra-ordenação.
2 - Salvo se o contrário resultar do presente diploma, são aplicáveis à perda
de objectos perigosos as regras relativas à sanção acessória de perda de
objectos.
Artigo 23.º
Perda do valor
Quando,
devido a actuação dolosa do agente, se tiver tornado total ou parcialmente
inexequível a perda de objectos que, no momento da prática do facto, lhe
pertenciam, pode ser declarada perdida uma quantia em dinheiro correspondente
ao valor daqueles.
Artigo 24.º
Efeitos da perda
O
carácter definitivo ou o trânsito em julgado da decisão de perda determina a
transferência da propriedade para o Estado ou outra entidade pública,
instituição particular de solidariedade social ou pessoa colectiva de utilidade
pública que a lei preveja.
Artigo 25.º
Perda independente de coima
A
perda de objectos perigosos ou do respectivo valor pode ter lugar ainda que não
possa haver procedimento contra o agente ou a este não seja aplicada uma coima.
Artigo 26.º
Objectos pertencentes a terceiro
A
perda de objectos perigosos pertencentes a terceiro só pode ter lugar:
a) Quando os seus titulares tiverem concorrido, com culpa,
para a sua utilização ou produção, ou do facto tiverem tirado vantagens; ou
b) Quando os objectos forem, por qualquer título, adquiridos após a prática do
facto, conhecendo os adquirentes a proveniência.
CAPÍTULO IV
Prescrição
Artigo 27.º
Prescrição do procedimento
O
procedimento por contra-ordenação extingue-se por efeito da prescrição logo que
sobre a prática da contra-ordenação hajam decorrido os seguintes prazos:
a) Dois anos, quando se trate de contra-ordenação a que seja
aplicável uma coima superior ao montante máximo previsto no n.º 1 do artigo
17.º;
b) Um ano, nos restantes casos.
Artigo 27.º-A
Suspensão da prescrição
A
prescrição do procedimento por contra-ordenação suspende-se, para além dos
casos previstos na lei, durante o tempo em que o procedimento não puder
legalmente iniciar-se ou continuar por falta de autorização legal.
Artigo 28.º
Interrupção da prescrição
1
- A prescrição do procedimento por contra-ordenação interrompe-se:
a) Com a comunicação ao arguido dos despachos, decisões ou
medidas contra ele tomados ou com qualquer notificação;
b) Com a realização de quaisquer diligências de prova, designadamente exames e
buscas, ou com o pedido de auxílio às autoridades policiais ou a qualquer
autoridade administrativa;
c) Com quaisquer declarações que o arguido tenha proferido no exercício do
direito de audição.
2
- Nos casos de concurso de infracções, a interrupção da prescrição do
procedimento criminal determina a interrupção da prescrição do procedimento por
contra-ordenação.
Artigo 29.º
Prescrição da coima
1
- As coimas prescrevem nos prazos seguintes:
a) Três anos, no caso de uma coima superior ao montante
máximo previsto no n.º 1 do artigo 17.º;
b) Um ano, nos restantes casos.
2
- O prazo conta-se a partir do carácter definitivo ou do trânsito em julgado da
decisão condenatória.
Artigo 30.º
Suspensão da prescrição da coima
A
prescrição da coima suspende-se durante o tempo em que:
a) Por força da lei a execução não pode começar ou não pode
continuar a ter lugar;
b) A execução foi interrompida;
c) Foram concedidas facilidades de pagamento.
Artigo 30.º-A
Interrupção da prescrição da coima
1
- A prescrição da coima interrompe-se com a sua execução.
2 - A prescrição da coima ocorre quando, desde o seu início e ressalvado o
tempo de suspensão, tiver decorrido o prazo normal da prescrição acrescido de
metade.
Artigo 31.º
Prescrição das sanções acessórias
Aplica-se
às sanções acessórias o regime previsto nos artigos anteriores para a
prescrição da coima.
CAPÍTULO V
Do direito subsidiário
Artigo 32.º
Do direito subsidiário
Em
tudo o que não for contrário à presente lei aplicar-se-ão subsidiariamente, no
que respeita à fixação do regime substantivo das contra-ordenações, as normas
do Código Penal.
II PARTE
Do processo de contra-ordenação
CAPÍTULO I
Da competência
Artigo 33.º
Regra da competência das autoridades administrativas
O
processamento das contra-ordenações e a aplicação das coimas e das sanções
acessórias competem às autoridades administrativas, ressalvadas as
especialidades previstas no presente diploma.
Artigo 34.º
Competência em razão da matéria
1
- A competência em razão da matéria pertencerá às autoridades determinadas pela
lei que prevê e sanciona as contra-ordenações.
2 - No silêncio da lei serão competentes os serviços designados pelo membro do
Governo responsável pela tutela dos interesses que a contra-ordenação visa
defender ou promover.
3 - Os dirigentes dos serviços aos quais tenha sido atribuída a competência a
que se refere o número anterior podem delegá-la, nos termos gerais, nos
dirigentes de grau hierarquicamente inferior.
Artigo 35.º
Competência territorial
1
- É territorialmente competente a autoridade administrativa concelhia em cuja
circunscrição:
a) Se tiver consumado a infracção ou, caso a infracção não
tenha chegado a consumar-se, se tiver praticado o último acto de execução ou,
em caso de punibilidade dos actos preparatórios, se tiver praticado o último
acto de preparação;
b) O arguido tem o seu domicílio ao tempo do início ou durante qualquer fase do
processo.
2
- Se a infracção for cometida a bordo de aeronave ou navio português, fora do
território nacional, será competente a autoridade em cuja circunscrição se
situe o aeroporto ou porto português que primeiro for escalado depois do
cometimento da infracção.
Artigo 36.º
Competência por conexão
1
- Em caso de concurso de contra-ordenações será competente a autoridade a quem,
segundo os preceitos anteriores, incumba processar qualquer das
contra-ordenações.
2 - O disposto no número anterior aplica-se também aos casos em que um mesmo
facto torna várias pessoas passíveis de sofrerem uma coima.
Artigo 37.º
Conflitos de competência
1
- Se das disposições anteriores resultar a competência cumulativa de várias
autoridades, o conflito será resolvido a favor da autoridade que, por ordem de
prioridades:
a) Tiver primeiro ouvido o arguido pela prática da
contra-ordenação;
b) Tiver primeiro requerido a sua audição pelas autoridades policiais;
c) Tiver primeiro recebido das autoridades policiais os autos de que conste a
audição do arguido.
2
- As autoridades competentes poderão, todavia, por razões de economia,
celeridade ou eficácia processuais, acordar em atribuir a competência a
autoridade diversa da que resultaria da aplicação do n.º 1.
Artigo 38.º
Autoridades competentes em processo criminal
1
- Quando se verifique concurso de crime e contra-ordenação, ou quando, pelo
mesmo facto, uma pessoa deva responder a título de crime e outra a título de
contra-ordenação, o processamento da contra-ordenação cabe às autoridades
competentes para o processo criminal.
2 - Se estiver pendente um processo na autoridade administrativa, devem os
autos ser remetidos à autoridade competente nos termos do número anterior.
3 - Quando, nos casos previstos nos n.os 1 e 2, o Ministério Público arquivar o
processo criminal mas entender que subsiste a responsabilidade pela
contra-ordenação, remeterá o processo à autoridade administrativa competente.
4 - A decisão do Ministério Público sobre se um facto deve ou não ser
processado como crime vincula as autoridades administrativas.
Artigo 39.º
Competência do tribunal
No
caso referido no n.º 1 do artigo anterior, a aplicação da coima e das sanções
acessórias cabe ao juiz competente para o julgamento do crime.
Artigo 40.º
Envio do processo ao Ministério Público
1
- A autoridade administrativa competente remeterá o processo ao Ministério
Público sempre que considere que a infracção constitui um crime.
2 - Se o agente do Ministério Público considerar que não há lugar para a
responsabilidade criminal, devolverá o processo à mesma autoridade.
CAPÍTULO II
Princípios e disposições gerais
Artigo 41.º
Direito subsidiário
1
- Sempre que o contrário não resulte deste diploma, são aplicáveis, devidamente
adaptados, os preceitos reguladores do processo criminal.
2 - No processo de aplicação da coima e das sanções acessórias, as autoridades
administrativas gozam dos mesmos direitos e estão submetidas aos mesmos deveres
das entidades competentes para o processo criminal, sempre que o contrário não
resulte do presente diploma.
Artigo 42.º
Meios de coacção
1
- Não é permitida a prisão preventiva, a intromissão na correspondência ou nos
meios de telecomunicação nem a utilização de provas que impliquem a violação do
segredo profissional.
2 - As provas que colidam com a reserva da vida privada, bem como os exames
corporais e a prova de sangue, só serão admissíveis mediante o consentimento de
quem de direito.
Artigo 43.º
Princípio da legalidade
O
processo das contra-ordenações obedecerá ao princípio da legalidade.
Artigo 44.º
Testemunhas
As
testemunhas não serão ajuramentadas.
Artigo 45.º
Consulta dos autos
1
- Se o processo couber às autoridades competentes para o processo criminal,
podem as autoridades administrativas normalmente competentes consultar os
autos, bem como examinar os objectos apreendidos.
2 - Os autos serão, a seu pedido, enviados para exame às autoridades
administrativas.
Artigo 46.º
Comunicação de decisões
1
- Todas as decisões, despachos e demais medidas tomadas pelas autoridades
administrativas serão comunicadas às pessoas a quem se dirigem.
2 - Tratando-se de medida que admita impugnação sujeita a prazo, a comunicação
revestirá a forma de notificação, que deverá conter os esclarecimentos
necessários sobre admissibilidade, prazo e forma de impugnação.
Artigo 47.º
Da notificação
1
- A notificação será dirigida ao arguido e comunicada ao seu representante
legal, quando este exista.
2 - A notificação será dirigida ao defensor escolhido cuja procuração conste do
processo ou ao defensor nomeado.
3 - No caso referido no número anterior, o arguido será informado através de
uma cópia da decisão ou despacho.
4 - Se a notificação tiver de ser feita a várias pessoas, o prazo de impugnação
só começa a correr depois de notificada a última pessoa.
CAPÍTULO III
Da aplicação da coima
pelas autoridades administrativas
Artigo 48.º
Da polícia e dos agentes de fiscalização
1
- As autoridades policiais e fiscalizadoras deverão tomar conta de todos os
eventos ou circunstâncias susceptíveis de implicar responsabilidade por
contra-ordenação e tomar as medidas necessárias para impedir o desaparecimento
de provas.
2 - Na medida em que o contrário não resulte desta lei, as autoridades
policiais têm direitos e deveres equivalentes aos que têm em matéria criminal.
3 - As autoridades policiais e agentes de fiscalização remeterão imediatamente
às autoridades administrativas a participação e as provas recolhidas.
Artigo 48.º-A
Apreensão de objectos
1
- Podem ser provisoriamente apreendidos pelas autoridades administrativas
competentes os objectos que serviram ou estavam destinados a servir para a
prática de uma contra-ordenação, ou que por esta foram produzidos, e bem assim
quaisquer outros que forem susceptíveis de servir de prova.
2 - Os objectos são restituídos logo que se tornar desnecessário manter a
apreensão para efeitos de prova, a menos que a autoridade administrativa
pretenda declará-los perdidos.
3 - Em qualquer caso, os objectos são restituídos logo que a decisão
condenatória se torne definitiva, salvo se tiverem sido declarados perdidos.
Artigo 49.º
Identificação pelas autoridades administrativas e policiais
As
autoridades administrativas competentes e as autoridades policiais podem exigir
ao agente de uma contra-ordenação a respectiva identificação.
Artigo 50.º
Direito de audição e defesa do arguido
Não
é permitida a aplicação de uma coima ou de uma sanção acessória sem antes se
ter assegurado ao arguido a possibilidade de, num prazo razoável, se pronunciar
sobre a contra-ordenação que lhe é imputada e sobre a sanção ou sanções em que
incorre.
Artigo 50.º-A
Pagamento voluntário
1
- Nos casos de contra-ordenação sancionável com coima de valor não superior a
metade dos montantes máximos previstos nos n.os 1 e 2 do artigo 17.º, é
admissível em qualquer altura do processo, mas sempre antes da decisão, o
pagamento voluntário da coima, a qual, se o contrário não resultar da lei, será
liquidada pelo mínimo, sem prejuízo das custas que forem devidas.
2 - O pagamento voluntário da coima não exclui a possibilidade de aplicação de
sanções acessórias.
Artigo 51.º
Admoestação
1
- Quando a reduzida gravidade da infracção e da culpa do agente o justifique,
pode a entidade competente limitar-se a proferir uma admoestação.
2 - A admoestação é proferida por escrito, não podendo o facto voltar a ser
apreciado como contra-ordenação.
Artigo 52.º
Deveres das testemunhas e peritos
1
- As testemunhas e os peritos são obrigados a obedecer às autoridades
administrativas quando forem solicitados a comparecer e a pronunciar-se sobre a
matéria do processo.
2 - Em caso de recusa injustificada, poderão as autoridades administrativas
aplicar sanções pecuniárias até 10000$00 e exigir a reparação dos danos
causados com a sua recusa.
Artigo 53.º
Do defensor
1
- O arguido da prática de uma contra-ordenação tem o direito de se fazer
acompanhar de advogado, escolhido em qualquer fase do processo.
2 - A autoridade administrativa nomeia defensor ao arguido, oficiosamente ou a
requerimento deste, nos termos previstos na legislação sobre apoio judiciário,
sempre que as circunstâncias do caso revelarem a necessidade ou a conveniência
de o arguido ser assistido.
3 - Da decisão da autoridade administrativa que indefira o requerimento de
nomeação de defensor cabe recurso para o tribunal.
Artigo 54.º
Da iniciativa e da instrução
1
- O processo iniciar-se-á oficiosamente, mediante participação das autoridades
policiais ou fiscalizadoras ou ainda mediante denúncia particular.
2 - A autoridade administrativa procederá à sua investigação e instrução, finda
a qual arquivará o processo ou aplicará uma coima.
3 - As autoridades administrativas poderão confiar a investigação e instrução,
no todo ou em parte, às autoridades policiais, bem como solicitar o auxílio de
outras autoridades ou serviços públicos.
Artigo 55.º
Recurso das medidas das autoridades administrativas
1
- As decisões, despachos e demais medidas tomadas pelas autoridades
administrativas no decurso do processo são susceptíveis de impugnação judicial
por parte do arguido ou da pessoa contra as quais se dirigem.
2 - O disposto no número anterior não se aplica às medidas que se destinem
apenas a preparar a decisão final de arquivamento ou aplicação da coima, não
colidindo com os direitos ou interesses das pessoas.
3 - É competente para decidir do recurso o tribunal previsto no artigo 61.º,
que decidirá em última instância.
Artigo 56.º
Processo realizado pelas autoridades competentes para o processo criminal
1
- Quando o processo é realizado pelas autoridades competentes para o processo
criminal, as autoridades administrativas são obrigadas a dar-lhes toda a
colaboração.
2 - Sempre que a acusação diga respeito à contra-ordenação, esta deve ser
comunicada às autoridades administrativas.
3 - As mesmas autoridades serão ouvidas pelo Ministério Público se este
arquivar o processo.
Artigo 57.º
Extensão da acusação a contra-ordenação
Quando,
nos casos previstos no artigo 38.º, o Ministério Público acusar pelo crime, a
acusação abrangerá também a contra-ordenação.
Artigo 58.º
Decisão condenatória
1
- A decisão que aplica a coima ou as sanções acessórias deve conter:
a) A identificação dos arguidos;
b) A descrição dos factos imputados, com indicação das provas obtidas;
c) A indicação das normas segundo as quais se pune e a fundamentação da
decisão;
d) A coima e as sanções acessórias.
2
- Da decisão deve ainda constar a informação de que:
a) A condenação se torna definitiva e exequível se não for
judicialmente impugnada nos termos do artigo 59.º;
b) Em caso de impugnação judicial, o tribunal pode decidir mediante audiência
ou, caso o arguido e o Ministério Público não se oponham, mediante simples
despacho.
3
- A decisão conterá ainda:
a) A ordem de pagamento da coima no prazo máximo de 10 dias
após o carácter definitivo ou o trânsito em julgado da decisão;
b) A indicação de que em caso de impossibilidade de pagamento tempestivo deve
comunicar o facto por escrito à autoridade que aplicou a coima.
CAPÍTULO IV
Recurso e processo judiciais
Artigo 59.º
Forma e prazo
1
- A decisão da autoridade administrativa que aplica uma coima é susceptível de
impugnação judicial.
2 - O recurso de impugnação poderá ser interposto pelo arguido ou pelo seu
defensor.
3 - O recurso é feito por escrito e apresentado à autoridade administrativa que
aplicou a coima, no prazo de 20 dias após o seu conhecimento pelo arguido,
devendo constar de alegações e conclusões.
Artigo 60.º
Contagem do prazo para impugnação
1
- O prazo para a impugnação da decisão da autoridade administrativa suspende-se
aos sábados, domingos e feriados.
2 - O termo do prazo que caia em dia durante o qual não for possível, durante o
período normal, a apresentação do recurso, transfere-se para o primeiro dia
útil seguinte.
Artigo 61.º
Tribunal competente
1
- É competente para conhecer do recurso o tribunal em cuja área territorial se
tiver consumado a infracção.
2 - Se a infracção não tiver chegado a consumar-se, é competente o tribunal em
cuja área se tiver praticado o último acto de execução ou, em caso de
punibilidade dos actos preparatórios, o último acto de preparação.
Artigo 62.º
Envio dos autos ao Ministério Público
1
- Recebido o recurso, e no prazo de cinco dias, deve a autoridade
administrativa enviar os autos ao Ministério Público, que os tornará presentes
ao juiz, valendo este acto como acusação.
2 - Até ao envio dos autos, pode a autoridade administrativa revogar a decisão
de aplicação da coima.
Artigo 63.º
Não aceitação do recurso
1
- O juiz rejeitará, por meio de despacho, o recurso feito fora do prazo ou sem
respeito pelas exigências de forma.
2 - Deste despacho há recurso, que sobe imediatamente.
Artigo 64.º
Decisão por despacho judicial
1
- O juiz decidirá do caso mediante audiência de julgamento ou através de
simples despacho.
2 - O juiz decide por despacho quando não considere necessária a audiência de
julgamento e o arguido ou o Ministério Público não se oponham.
3 - O despacho pode ordenar o arquivamento do processo, absolver o arguido ou
manter ou alterar a condenação.
4 - Em caso de manutenção ou alteração da condenação deve o juiz fundamentar a
sua decisão, tanto no que concerne aos factos como ao direito aplicado e às
circunstâncias que determinaram a medida da sanção.
5 - Em caso de absolvição deverá o juiz indicar porque não considera provados
os factos ou porque não constituem uma contra-ordenação.
Artigo 65.º
Marcação da audiência
Ao
aceitar o recurso o juiz marca a audiência, salvo o caso referido no n.º 2 do
artigo anterior.
Artigo 65.º-A
Retirada da acusação
1
- A todo o tempo, e até à sentença em 1.ª instância ou até ser proferido o
despacho previsto no n.º 2 do artigo 64.º, pode o Ministério Público, com o
acordo do arguido, retirar a acusação.
2 - Antes de retirar a acusação, deve o Ministério Público ouvir as autoridades
administrativas competentes, salvo se entender que tal não é indispensável para
uma adequada decisão.
Artigo 66.º
Direito aplicável
Salvo
disposição em contrário, a audiência em 1.ª instância obedece às normas
relativas ao processamento das transgressões e contravenções, não havendo lugar
à redução da prova a escrito.
Artigo 67.º
Participação do arguido na audiência
1
- O arguido não é obrigado a comparecer à audiência, salvo se o juiz considerar
a sua presença como necessária ao esclarecimento dos factos.
2 - Nos casos em que o juiz não ordenou a presença do arguido este poderá
fazer-se representar por advogado com procuração escrita.
3 - O tribunal pode solicitar a audição do arguido por outro tribunal, devendo
a realização desta diligência ser comunicada ao Ministério Público e ao
defensor e sendo o respectivo auto lido na audiência.
Artigo 68.º
Ausência do arguido
1
- Nos casos em que o arguido não comparece nem se faz representar por advogado,
tomar-se-ão em conta as declarações que lhe tenham sido colhidas no processo ou
registar-se-á que ele nunca se pronunciou sobre a matéria dos autos, não
obstante lhe ter sido concedida a oportunidade para o fazer, e julgar-se-á.
2 - Se, porém, o tribunal o considerar necessário, pode marcar uma nova
audiência.
Artigo 69.º
Participação do Ministério Público
O
Ministério Público deve estar presente na audiência de julgamento.
Artigo 70.º
Participação das autoridades administrativas
1
- O tribunal concederá às autoridades administrativas a oportunidade de
trazerem à audiência os elementos que reputem convenientes para uma correcta
decisão do caso, podendo um representante daquelas autoridades participar na
audiência.
2 - O mesmo regime se aplicará, com as necessárias adaptações, aos casos em
que, nos termos do n.º 3 do artigo 64.º, o juiz decidir arquivar o processo.
3 - Em conformidade com o disposto no n.º 1, o juiz comunicará às autoridades
administrativas a data da audiência.
4 - O tribunal comunicará às mesmas autoridades a sentença, bem como as demais
decisões finais.
Artigo 71.º
Retirada do recurso
1
- O recurso pode ser retirado até à sentença em 1.ª instância ou até ser
proferido o despacho previsto no n.º 2 do artigo 64.º
2 - Depois do início da audiência de julgamento, o recurso só pode ser retirado
mediante o acordo do Ministério Público.
Artigo 72.º
Prova
1
- Compete ao Ministério Público promover a prova de todos os factos que
considere relevantes para a decisão.
2 - Compete ao juiz determinar o âmbito da prova a produzir.
Artigo 72.º-A
Proibição da reformatio in pejus
1
- Impugnada a decisão da autoridade administrativa ou interposto recurso da
decisão judicial somente pelo arguido, ou no seu exclusivo interesse, não pode
a sanção aplicada ser modificada em prejuízo de qualquer dos arguidos, ainda
que não recorrentes.
2 - O disposto no número anterior não prejudica a possibilidade de agravamento
do montante da coima, se a situação económica e financeira do arguido tiver
entretanto melhorado de forma sensível.
Artigo 73.º
Decisões judiciais que admitem recurso
1
- Pode recorrer-se para a relação da sentença ou do despacho judicial
proferidos nos termos do artigo 64.º quando:
a) For aplicada ao arguido uma coima superior a 50000$00;
b) A condenação do arguido abranger sanções acessórias;
c) O arguido for absolvido ou o processo for arquivado em casos em que a
autoridade administrativa tenha aplicado uma coima superior a 50000$00 ou em
que tal coima tenha sido reclamada pelo Ministério Público;
d) A impugnação judicial for rejeitada;
e) O tribunal decidir através de despacho não obstante o recorrente se ter
oposto a tal.
2
- Para além dos casos enunciados no número anterior, poderá a relação, a
requerimento do arguido ou do Ministério Público, aceitar o recurso da sentença
quando tal se afigure manifestamente necessário à melhoria da aplicação do
direito ou à promoção da uniformidade da jurisprudência.
3 - Se a sentença ou o despacho recorrido são relativos a várias infracções ou
a vários arguidos e se apenas quanto a alguma das infracções ou a algum dos
arguidos se verificam os pressupostos necessários, o recurso subirá com esses
limites.
Artigo 74.º
Regime do recurso
1
- O recurso deve ser interposto no prazo de 10 dias a partir da sentença ou do
despacho, ou da sua notificação ao arguido, caso a decisão tenha sido proferida
sem a presença deste.
2 - Nos casos previstos no n.º 2 do artigo 73.º, o requerimento deve seguir
junto ao recurso, antecedendo-o.
3 - Neste casos, a decisão sobre o requerimento constitui questão prévia, que
será resolvida por despacho fundamentado do tribunal, equivalendo o seu
indeferimento à retirada do recurso.
4 - O recurso seguirá a tramitação do recurso em processo penal, tendo em conta
as especialidades que resultam deste diploma.
Artigo 75.º
Âmbito e efeitos do recurso
1
- Se o contrário não resultar deste diploma, a 2.ª instância apenas conhecerá
da matéria de direito, não cabendo recurso das suas decisões.
2 - A decisão do recurso poderá:
a) Alterar a decisão do tribunal recorrido sem qualquer
vinculação aos termos e ao sentido da decisão recorrida, salvo o disposto no
artigo 72.º-A;
b) Anulá-la e devolver o processo ao tribunal recorrido.
CAPÍTULO V
Processo de contra-ordenação e processo criminal
Artigo 76.º
Conversão em processo criminal
1
- O tribunal não está vinculado à apreciação do facto como contra-ordenação,
podendo, oficiosamente ou a requerimento do Ministério Público, converter o
processo em processo criminal.
2 - A conversão do processo determina a interrupção da instância e a
instauração de inquérito, aproveitando-se, na medida do possível, as provas já
produzidas.
Artigo 77.º
Conhecimento da contra-ordenação no processo criminal
1
- O tribunal poderá apreciar como contra-ordenação uma infracção que foi
acusada como crime.
2 - Se o tribunal só aceitar a acusação a título de contra-ordenação, o
processo passará a obedecer aos preceitos desta lei.
Artigo 78.º
Processo relativo a crimes e contra-ordenações
1
- Se o mesmo processo versar sobre crimes e contra-ordenações, havendo
infracções que devam apenas considerar-se como contra-ordenações, aplicam-se,
quanto a elas, os artigos 42.º, 43.º, 45.º, 58.º, n.os 1 e 3, 70.º e 83.º
2 - Quando, nos casos previstos no número anterior, se interpuser
simultaneamente recurso em relação a contra-ordenação e a crime, os recursos
subirão juntos.
3 - O recurso subirá nos termos do Código de Processo Penal, não se aplicando o
disposto no artigo 66.º nem dependendo o recurso relativo à contra-ordenação
dos pressupostos do artigo 73.º .
CAPÍTULO VI
Decisão definitiva, caso julgado e revisão
Artigo 79.º
Alcance da decisão definitiva e do caso julgado
1
- O carácter definitivo da decisão da autoridade administrativa ou o trânsito
em julgado da decisão judicial que aprecie o facto como contra-ordenação ou
como crime precludem a possibilidade de reapreciação de tal facto como
contra-ordenação.
2 - O trânsito em julgado da sentença ou despacho judicial que aprecie o facto
como contra-ordenação preclude igualmente o seu novo conhecimento como crime.
Artigo 80.º
Admissibilidade da revisão
1
- A revisão de decisões definitivas ou transitadas em julgado em matéria
contra-ordenacional obedece ao disposto nos artigos 449.º e seguintes do Código
de Processo Penal, sempre que o contrário não resulte do presente diploma.
2 - A revisão do processo a favor do arguido, com base em novos factos ou em
novos meios de prova não será admissível quando:
a) O arguido apenas foi condenado em coima inferior a
7500$00;
b) Já decorreram cinco anos após o trânsito em julgado ou carácter definitivo
da decisão a rever.
3
- A revisão contra o arguido só será admissível quando vise a sua condenação
pela prática de um crime.
Artigo 81.º
Regime do processo de revisão
1
- A revisão de decisão da autoridade administrativa cabe ao tribunal competente
para a impugnação judicial.
2 - Tem legitimidade para requerer a revisão o arguido, a autoridade
administrativa e o Ministério Público.
3 - A autoridade administrativa deve remeter os autos ao representante do
Ministério Público junto do tribunal competente.
4 - A revisão de decisão judicial será da competência do tribunal da relação,
aplicando-se o disposto no artigo 451.º do Código de Processo Penal.
Artigo 82.º
Caducidade da aplicação da coima por efeito de decisão no processo criminal
1
- A decisão da autoridade administrativa que aplicou uma coima ou uma sanção
acessória caduca quando o arguido venha a ser condenado em processo criminal
pelo mesmo facto.
2 - O mesmo efeito tem a decisão final do processo criminal que, não
consistindo numa condenação, seja incompatível com a aplicação da coima ou da
sanção acessória.
3 - As importâncias pecuniárias que tiverem sido pagas a título de coima serão,
por ordem de prioridade, levadas à conta da multa e das custas processuais ou,
sendo caso disso, restituídas.
4 - Da sentença ou das demais decisões do processo criminal referidas nos n.os
1 e 2 deverá constar a referência aos efeitos previstos nos n.os 1, 2 e 3.
CAPÍTULO VII
Processos especiais
Artigo 83.º
Processo de apreensão
Quando,
no decurso do processo, a autoridade administrativa decidir apreender qualquer
objecto, nos termos do artigo 48.º-A, deve notificar a decisão às pessoas que
sejam titulares de direitos afectados pela apreensão.
Artigo 85.º
Impugnação judicial da apreensão
A
decisão de apreensão pode ser impugnada judicialmente, sendo aplicáveis as
regras relativas à impugnação da decisão de perda de objectos.
Artigo 87.º
Processo relativo a pessoas colectivas ou equiparadas
1
- As pessoas colectivas e as associações sem personalidade jurídica são
representadas no processo por quem legal ou estatutariamente as deva
representar.
2 - Nos processos relativos a pessoas colectivas ou a associações sem
personalidade jurídica é também competente para a aplicação da coima e das
sanções acessórias a autoridade administrativa em cuja área a pessoa colectiva
ou a associação tenha a sua sede.
CAPÍTULO VIII
Da execução
Artigo 88.º
Pagamento da coima
1
- A coima é paga no prazo de 10 dias a partir da data em que a decisão se
tornar definitiva ou transitar em julgado, não podendo ser acrescida de
quaisquer adicionais.
2 - O pagamento deve ser feito contra recibo, cujo duplicado será entregue à
autoridade administrativa ou tribunal que tiver proferido a decisão.
3 - Em caso de pagamento parcial, e salvo indicação em contrário do arguido, o
pagamento será, por ordem de prioridades, levado à conta da coima e das custas.
4 - Sempre que a situação económica o justifique, poderá a autoridade
administrativa ou o tribunal autorizar o pagamento da coima dentro de prazo que
não exceda um ano.
5 - Pode ainda a autoridade administrativa ou o tribunal autorizar o pagamento
em prestações, não podendo a última delas ir além dos dois anos subsequentes ao
carácter definitivo ou ao trânsito em julgado da decisão e implicando a falta
de pagamento de uma prestação o vencimento de todas as outras.
6 - Dentro dos limites referidos nos n.os 4 e 5 e quando motivos supervenientes
o justifiquem, os prazos e os planos de pagamento inicialmente estabelecidos
podem ser alterados.
Artigo 89.º
Da execução
1
- O não pagamento em conformidade com o disposto no artigo anterior dará lugar
à execução, que será promovida, perante o tribunal competente, segundo o artigo
61.º, salvo quando a decisão que dá lugar à execução tiver sido proferida pela
relação, caso em que a execução poderá também promover-se perante o tribunal da
comarca do domicílio do executado.
2 - A execução é promovida pelo representante do Ministério Público junto do
tribunal competente, aplicando-se, com as necessárias adaptações, o disposto no
Código de Processo Penal sobre a execução da multa.
3 - Quando a execução tiver por base uma decisão da autoridade administrativa,
esta remeterá os autos ao representante do Ministério Público competente para
promover a execução.
4 - O disposto neste artigo aplica-se, com as necessárias adaptações, às
sanções acessórias, salvo quanto aos termos da execução, aos quais é aplicável
o disposto sobre a execução de penas acessórias em processo criminal.
Artigo 89.º-A
Prestação de trabalho a favor da comunidade
1
- A lei pode prever que, a requerimento do condenado, possa o tribunal
competente para a execução ordenar que a coima aplicada seja total ou
parcialmente substituída por dias de trabalho em estabelecimentos, oficinas ou
obras do Estado ou de outras pessoas colectivas de direito público, ou de
instituições particulares de solidariedade social, quando concluir que esta
forma de cumprimento se adequa à gravidade da contra-ordenação e às
circunstâncias do caso.
2 - A correspondência entre o montante da coima aplicada e a duração da
prestação de trabalho, bem como as formas da sua execução, são reguladas por
legislação especial.
Artigo 90.º
Extinção e suspensão da execução
1
- A execução da coima e das sanções acessórias extingue-se com a morte do
arguido.
2 - Deve suspender-se a execução da decisão da autoridade administrativa quando
tenha sido proferida acusação em processo criminal pelo mesmo facto.
3 - Quando, nos termos dos n.os 1 e 2 do artigo 82.º, exista decisão em
processo criminal incompatível com a aplicação administrativa de coima ou de
sanção acessória, deve o tribunal da execução declarar a caducidade desta,
oficiosamente ou a requerimento do Ministério Público ou do arguido.
Artigo 91.º
Tramitação
1
- O tribunal perante o qual se promove a execução será competente para decidir
sobre todos os incidentes e questões suscitados na execução, nomeadamente:
a) A admissibilidade da execução;
b) As decisões tomadas pelas autoridades administrativas em matéria de
facilidades de pagamento;
c) A suspensão da execução segundo o artigo 90.º.
2
- As decisões referidas no n.º 1 são tomadas sem necessidade de audiência oral,
assegurando-se ao arguido ou ao Ministério Público a possibilidade de
justificarem, por requerimento escrito, as suas pretensões.
CAPÍTULO IX
Das custas
Artigo 92.º
Princípios gerais
1
- Se o contrário não resultar desta lei, as custas em processo de
contra-ordenação regular-se-ão pelos preceitos reguladores das custas em
processo criminal.
2 - As decisões das autoridades administrativas que decidam sobre a matéria do
processo deverão fixar o montante das custas e determinar quem as deve
suportar.
3 - As custas abrangem, nos termos gerais, a taxa de justiça, os honorários dos
defensores oficiosos, os emolumentos a pagar aos peritos e os demais encargos
resultantes do processo.
Artigo 93.º
Da taxa de justiça
1
- O processo de contra-ordenação que corra perante as autoridades
administrativas não dá lugar ao pagamento de taxa de justiça.
2 - Está também isenta de taxa de justiça a impugnação judicial de qualquer
decisão das autoridades administrativas.
3 - Dão lugar ao pagamento de taxa de justiça todas as decisões judiciais
desfavoráveis ao arguido.
4 - A taxa de justiça não será inferior a 150$00 nem superior a 75000$00,
devendo o seu montante ser fixado em razão da situação económica do infractor,
bem como da complexidade do processo.
Artigo 94.º
Das custas
1
- Os honorários dos defensores oficiosos e os emolumentos devidos aos peritos
obedecerão às tabelas do Código das Custas Judiciais.
2 - As custas deverão, entre outras, cobrir as despesas efectuadas com:
a) O transporte dos defensores e peritos;
b) As comunicações telefónicas, telegráficas ou postais, nomeadamente as que se
relacionam com as notificações;
c) O transporte de bens apreendidos;
d) A indemnização das testemunhas.
3
- As custas são suportadas pelo arguido em caso de aplicação de uma coima ou de
uma sanção acessória, de desistência ou rejeição da impugnação judicial ou dos
recursos de despacho ou sentença condenatória.
4 - Nos demais casos, as custas serão suportadas pelo erário público.
Artigo 95.º
Impugnação das custas
1
- O arguido pode, nos termos gerais, impugnar judicialmente a decisão da
autoridade administrativa relativa às custas, devendo a impugnação ser
apresentada no prazo de 10 dias a partir do conhecimento da decisão a impugnar.
2 - Da decisão do tribunal da comarca só há recurso para a relação quando o
montante exceda a alçada daquele tribunal.
CAPÍTULO X
Disposição final
Artigo 96.º
Revogação
Fica
revogado o Decreto-Lei n.º 232/79, de 24 de Julho.